Prazer em duas rodas

Uso da bicicleta gera melhorias na saúde e é aliado da mobilidade urbana

Pedala Gama (15)

Magrela, camelo, bike… não importa o apelido, importante mesmo são os benefícios proporcionados pelo ciclismo, um esporte completo e que ainda oferece aos praticantes os prazeres de desbravar a cidade por outro ângulo e distante dos motores do dia a dia. Os custos para a prática desse esporte variam, mas com uma bicicleta e equipamentos de segurança, qualquer um pode ir longe e conquistar qualidade de vida. Pedalar melhora o condicionamento físico, a circulação sanguínea, fortalece os músculos, auxilia no emagrecimento, reduz a pressão arterial e a frequência cardíaca, trabalha o sistema respiratório e cardiovascular. Além de reduzir o colesterol ruim, o chamado LDL e promover melhoras na oxigenação do cérebro.

Na prática, a soma desses fatores gerados pela prática regular do ciclismo resulta em mais disposição para as tarefas do dia a dia, explica o professor de educação física Renato André Silva. Ele também destaca que o ciclismo é uma atividade de baixo impacto, por esse motivo os riscos de lesão são menores. “Você consegue se condicionar poupando suas articulações. Por que muitas vezes isso faz com que as pessoa se retirem da prática dos exercícios: elas mal começam uma atividade e já se machucam”

O ciclista Francisco Pereira pedala todos os dias

O ciclista Francisco Pereira pedala todos os dias

Por ser uma atividade aeróbica e trabalhar o sistema cardiovascular, o ciclismo fortalece o coração, explica o angiologista e cirurgião vascular Edson Amaro Neves. “Em muitos casos a prática do esporte até auxilia na terapêutica de recuperação de um cardiopata e age também na prevenção”. Outra vantagem para quem pedala é conquistar pernas bonitas e livres de varizes. “É uma atividade que vai estimular muito inclusive a estética da perna, a musculatura da perna vai ser favorecida. É um esporte salutar e ajuda também na prevenção das varizes”, diz Neves.

Os especialistas asseguram que o ciclismo é benéfico para todas as idades. Com a avaliação e acompanhamento de um profissional e sempre com os equipamentos de segurança, crianças, adultos e idosos estão aptos a pedalar. Francisco de Assis Pereira, 26, pedala desde os 9 anos de idade e utiliza a bicicleta para lazer e também como meio de transporte. “Todos os dias à tarde a passeio sozinho ou com a minha cadela, inclusive é o meu principal meio de transporte e em alguns finais de semana gosto de pegar umas trilhas pelo cerrado”.

Pedalar sozinho ou em grupo

O ciclismo pode ser praticado individualmente, mas quem prefere praticar de forma coletiva, pode convidar os amigos ou entrar em grupos de ciclistas já existentes. O grupo Pedala Gama, criado em 2010, tem como objetivo incentivar a prática do esporte e oferecer segurança e companhia aos ciclistas que desejarem explica um dos coordenadores do Pedala Gama, Cláudio Pinheiro Ferreira, 42. O grupo já conta com 578 participantes. No início, eram menos de cem pessoas.  “Estamos fazendo um bom trabalho de acolhimento. Os ciclistas que desconhecem totalmente o equipamento recebem orientações e sempre tem o carinho dos coordenadores”.

Há horários e percursos classificados por níveis de dificuldade. Os iniciantes percorrem trajetos mais curtos, de 17 km, e à medida que o nível avança, o participante pode optar por ampliar os quilômetros percorridos. Os trajetos classificados como difíceis ultrapassam 100 km e as clicloviagens, realizadas esporadicamente, chegam a quase 600 km, ida e volta. Para incentivar os ciclistas foi criado um ranking e cada pedal é contabilizado, quando o participante atinge determinada meta é premiado com medalhas.  O pedal para iniciante acontece sempre aos domingos, às 8 horas da manhã, concentração na pista de cooper.

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Grupo Pedala Gama

Para participar do grupo basta ter uma bicicleta e ter todos os equipamentos como luvas, óculos, sinalizadores, câmaras e remendos reservas, garrafinhas de água. O uso do capacete já é obrigatório pelo Código de Trânsito Brasileiro e não deve ser esquecido, recomenda o professor Renato André Silva. “Cair com a mão no asfalta você rala, agora bater a cabeça muitas vezes pode ser irreversível, então o capacete é básico”. Beber água com frequência e comer de forma adequada também contribuem para o sucesso da pedalada, sempre com respeito aos limites do corpo.

Escolher a roupa adequada e os calçados corretos para essa atividade é outro ponto que deve ser considerado, ressalta o educador físico e professor de ciclismo in door Sérgio Nunes. “Quando falamos em pedalar, imaginamos os movimentos que fazemos com nossos membros inferiores e consequentemente nos pés. É o que faz o contato direto com os pedais e por deve estar bem equipado”. Ele recomenda o uso de sapatilhas para ciclismo que possui um sistema de ventilação especial e adere ao pedal e permite pedalas firmes e fortes, sem o risco do pé escorregar. Uma alternativa para as sapatilhas são tênis. “Aconselho um tênis com solado rígido, porém confortável e que guarde os cadarços dentro tênis para evitar acidentes.”

In door x ao ar livre

O ciclismo in door existe no Brasil há cerca de 18 anos. Praticado em academias ou em eventos, essa atividade simula as pedaladas ao ar livre e gera os mesmos benefícios. “É praticada numa bicicleta estacionaria de peão (catraca) fixo, onde o praticante através do simples ajuste manual pode simular diversos tipos de terrenos e tencionar a carga simulando a marcha da bicicleta.”, explica o professor de ciclismo in door, Sérgio Nunes. 

A prática é recomendada para pessoas de qualquer idade. Nunes afirma que aquelas pessoas com pouco tempo, que têm o objetivo de perder peso, e melhorar o condicionamento físico são as que mais procuram pelo ciclismo in door. Atletas em fase de recuperação ou reabilitação cardiovascular ou orto muscular também costumam de optar pelas pedalas em ambiente fechado. “O que difere essa modalidade do ciclismo praticado na rua, principalmente é o prazer em sentir o vento na cara, as paisagens, as surpresas pelo caminho”, compara o professor.

Ciclovias: alternativa de mobilidade urbana sofre críticas

Até o final de 2014 o Distrito Federal deve ter 600 km de ciclovias. Essa é a meta do Governo do Distrito Federal prevista no Plano de Mobilidade por Bicicleta do DF. O documento propõe três eixos: Infraestrutura, Mudança de Comportamento e Serviços.

Uma das principais ações do primeiro eixo é a construção das rotas cicloviárias e de estacionamentos exclusivos para bicicletas. O segundo trata de ações de incentivo ao uso do transporte alternativo, como campanhas publicitárias e também doação de bicicletas para estudantes. No eixo de Serviços estão incluídas ações que ofereçam versatilidade ao cidadão, ciclofaixa do lazer aos domingos e a bicicleta de aluguel são algumas das propostas.

Para o coordenador do Fórum de Mobilidade por Bicicleta, Paulo Alexandre Passos, os investimentos são importantes para uma mudança de cultura da sociedade e contribuem para os problemas de mobilidade urbana. “É dar uma outra alternativa de transporte para aqueles trajetos de curta distância. Ao invés da pessoa fazer um trajeto de 5 km para trabalhar de carro, ela tem uma outra oportunidade agora de fazer de forma segura nas ciclovias, por bicicleta, então é isso como uma alternativa da mobilidade na cidade”, afirma.

No Gama serão construídos 25 km da faixa exclusiva. A obra foi divida em duas etapas, a primeira teve início em maio e conta com 13,5 km e a segunda 11,5 km.  Para o aposentado João de Souza, 74, as ciclovias são importantes, pois oferecem mais segurança ao ciclista. Entretanto, ainda sim é preciso enfrentar obstáculos, no caso os pedestres que utilizam o espaço para fazer caminhada. “A gente precisa desviar, ficar esperando. Essa pista aqui não é só para ciclista”, reclama.

Outro problema apontado por Francisco de Assis Pereira são falhas no trajeto construído que, segundo ele, oferecem perigo ao ciclista. “Alguns desvios em minha opinião são desnecessários, como a do semáforo entre o Corpo de Bombeiros e do Estádio. O trajeto poderia continuar em linha reta, fazendo o ciclista obedecer ao sinal junto com os carros”. Ele também sugere a construção de ciclovia próxima a Rodoviária e ao Hospital.

O arquiteto e urbanista Ariomar Nogueira alerta para riscos de acidente devido a irregularidades na pista exclusiva. “A ciclovia, que não é ciclovia, é uma obra urbanisticamente irresponsável. Ela é o ‘possíveis prováveis curvas da morte’”. Um dos problemas apontados por ele é falta de avisos nos pontos em que a ciclovia é interrompida para passagem de veículos.

As curvas também podem comprometer a segurança de quem passa de bicicleta pelo local, alerta Nogueira. “Em alguns pontos, a ciclovia ficou a pista de rolamento e por isso no momento que a pessoa frear, ela pode, perder o controle e cair na pista de rolamento,  podendo ser atropelada”, analisa. Ele recomenda a implantação de grades de segurança em todo o percurso e saídas devidamente sinalizadas. Enquanto as alterações para proteção não são feitas, o urbanista recomenda a retirada das ciclovias.

Em nota, a assessoria de comunicação da Administração Regional do Gama informa que “A maior parte do percurso atende as demandas de proteção e mobilidade ao ciclista e oferece muito mais segurança que a vulnerabilidade das vias que transitam os automóveis”.

Poesia itinerante no Gama

Foto: Joaquim Dantas

“Banca de Poetas” leva livros, CDs e atividades culturais para as ruas com o objetivo de aproximar a arte do público

A poesia não tem hora e nem lugar para acontecer. Qualquer espaço pode virar uma biblioteca, um sarau, uma exposição de arte, um espaço para troca de ideias. E é isso que a Banca de Poetas proporciona há mais de 10 anos ao levar para as ruas livros, CDs, teatro literário, debates, oficinas, recitais, exposições de diversas linguagens e oferecer às pessoas contato com a arte.

Idealizada pelo ator e poeta José Garcia Caianno, 59, em 2001, a Banca de Poetas foi inspirada na o trabalho desenvolvido por Augusto Boal diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta brasileiro que inovou ao democratizar o acesso a espetáculos. Segundo Caianno, além de difundir o hábito da leitura e outras linguagens culturais em todos os lugares e para todas as pessoas, o modelo da Banca de Poetas ainda liberta o artista da burocracia para obter autorização e recursos para realizar um projeto em locais fechados.

O projeto já foi de feiras de eletrodomésticos a feiras de livros, passando por esquinas, semáforos, hospitais e eventos culturais.  “Você tem o contato direto com o público e é muito mais rico, por que você atinge todo o público, não é só uma classe social que tem dinheiro e pode pagar. Na rua você encontra pessoas que vivem na rua, que trabalham na rua, que estão transitando pela rua, então o seu trabalho tem a oportunidade de ficar com todas as pessoas ao mesmo tempo. É isso que a Banca de Poetas acaba realizando, um grande encontro das pessoas com a obra de arte. Começando pela literatura”, explicou.

Foto: Wagner Santos

É possível encontrar no acervo da Banca livros de diferentes gêneros. Crianças e adultos tem um espaço garantido. Sendo que o público infantil é o principal alvo da Banca. Há livros infantis, espaço para leitura e pintura. O cantor e artesão Ciclone participou da Banca de Poetas, durante a 4ª Pré-Conferência de Cultura do Gama e lá encontrou um livro que há muito tempo procurava. “Foi muito interessante encontrar um espaço tão convidativo como a Banca. Lá há livros interessantes, inclusive peguei um para ler.”

Para participar da Banca, José Garcia Caianno diz que é simples. Basta chegar com um livro e uma ideia interessante. Todos estão convidados e quem quiser fazer doação, pode encontrar com o ator e poeta pelo telefone 9289.7113. “Que cada um traga um livro, CDs, quiçá um sonho para que possamos cometer um escambo lindo”.

Todas as linguagens têm espaço na Banca. Literatura, música, artes plásticas, artes visuais dialogam em grande sintonia. O artista plástico Mario da Salluz é um colaborador do projeto, ele expõe obras feitas com material reciclável. “Como a Banca de Poetas abre para outras vertentes e começou a abrir para artes plásticas, vamos somar juntos.”

O poeta

Foto: Wagner Santos

José Garcia Caianno é autor do livro “Todo mundo é muito bom, mas meu casaco sumiu” publicado em 2010. A publicação aborda de forma crítica e bem humorada política, sociologia, filosofia e antropologia ao contar a história de um homem que inicia amizade com pessoas de mau caráter e termina preso.

Serviço: A Banca de Poetas aceita doação e troca livros. Contato: 9289.7113 – José Garcia Caianno

“Quem nunca viu partir um barco
Não sentiu a dor de ver levada pelas águas seu grande amor
A dor da saudade às vezes é tamanha que invade a própria alma
Os cantadores cada um com seu canto
Anunciam a solidão da madrugada
Ludmila com sua mágoa parte como quem não chora
Ela só pensa em ver agora quando verá regressar ao invés de ver partir outro barco
Ludmila parte como quem não chora”

(José Garcia Caianno)

Parque Vivencial? Só no papel

A luta pela implantação do Parque Urbano e Vivencial do Gama é antiga: desde 1984 moradores aguardam a construção do espaço e cobram do governo medidas efetivas

Foto: Larissa Souza

A implantação do Parque Urbano e Vivencial do Gama, PUVG, continua sem data definida. Apesar de fazer parte do programa do Governo do Distrito Federal “Brasília, Cidade Parque”, que tem por objetivo a revitalização e implantação de 72 parques, ainda não há previsão de quando a cidade receberá os investimentos.

Até um concurso para escolha do projeto arquitetônico do PUVG já foi realizado. Mas até agora Parque mesmo só no papel. Enquanto nada é feito, a comunidade se revolta e assiste a área ser ocupada por construções irregulares. O que era para ser um local de lazer para os moradores tem se tornado setor de igrejas, chácaras e associações.

“Até quando vamos ficar na fila? Isso não é só discriminação e falta de respeito com a nossa cidade”. Essa foi a pergunta feita por Marcos Moreno, ex-presidente do Conselho Comunitário do Setor Norte do Gama, CCSN, em uma rede social e traduz o sentimento de indignação dos gamenses que aguardam desde 1984 a implantação do PUVG. No ano, a área de 590 mil m² foi catalogada como área de proteção ambiental. O local também está previsto no Plano Diretor do Gama e foi instituído pela Lei 1.959/98. No entanto, a legislação foi declarada inconstitucional depois de uma ação movida pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, MPDFT, pois cabe apenas ao executivo criar projetos que tratam do uso de solo, explica o promotor Paulo José Leite Farias.

Apesar da inconstitucionalidade da Lei, outros meios legais garantem a implantação do PUVG. “Isso não invalida, entretanto, a existência do Parque. Por que o Plano Diretor do Gama, que ainda está vigor, prevê a área. E também está em curso na Câmara um processo legislativo da Lei de Uso e Ocupação do Solo Urbano, essa lei irá subsistir os antigos Planos Diretores Locais, e na LUOS o PUVG está previsto”, afirma o promotor Farias.

Para sair do papel

Para a construção do Parque, a Secretaria de Estado de Habitação Regularização e Desenvolvimento Urbano, Sedhab,  realizou em 2012 Concurso Público Nacional de Estudos Preliminares de Arquitetura e Paisagismo para o Parque Urbano e Vivencial do Gama. O projeto foi escolhido por uma comissão julgadora, mas o processo de licitação do concurso foi questionado pelo MPDFT. A Sedhab contesta a ação e informou, por meio de nota, que a execução do projeto será retomada, assim que o questionamento do MPDFT for resolvido.

Em paralelo aos conflitos legais a cerca do Parque Urbano e Vivencial do Gama, o GDF segue com o “Programa Brasília, Cidade Parque”. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos a previsão é que até o final do ano 32 parques receberão investimentos. Ao todo, 72 parques fazem parte do programa. Os próximos serão Sucupira, em Planaltina, no dia 10 de agosto, e o Centro de Excelência do Jardim Botânico de Brasília, dia 24 de agosto. O Saburo Onoyma e Cortado em Taguatinga, Dom Bosco, no Lago Sul, Parque da Estrutural e outros sete estão em construção. O Gama não foi citado.

A demora em atender a demanda da comunidade deixa os moradores inconformados. Para o morador Antônio Machado, 50, a cidade está esquecida e não conta com opções de lazer para os moradores. “Qualquer cidade que se preze no mundo tem um parque para as pessoas passearem, caminharem, levarem seus filhos, andarem de bicicleta. Enfim, fazer várias atividades”, reclama.

Eduardo Ferreira, 32, costuma levar os filhos e sobrinhos para brincar em um campo de futebol improvisado e acredita que é preciso aproveitar a área disponível para fazer algo útil e que beneficie os moradores do Gama. Pois o abandono com o local faz com que os moradores também fiquem em perigo. “Primeiro por ter muita criança aqui, elas teria um local apropriado para brincar. Segundo por segurança. A área seria ocupada e conservada, o que diminuiria o mato e aumentaria a segurança.”

Parque gera benefícios para a cidade

Qualidade de vida; desenvolvimento econômico; preservação dos recursos ambientais e históricos; oportunidades educacionais e de pesquisas. Esses são alguns impactos positivos que a instalação de um parque causa na região contemplada, explica o professor do Núcleo de Estudos Socioambientais da Universidade de Brasília e ex-presidente do Instituto Brasília Ambiental, Gustavo Souto Maior. O especialista explica que um parque não fica isolado, pelo contrário, ele desencadeia benefícios que refletem em toda a sociedade.

Souto Maior destaca o papel econômico. “Um parque bem instalado em uma região ele melhora a economia de uma região. Ele atrai investimento para aquela região”. Estudo feito pelo Departamento de Economia da UnB na Asa Norte, região onde está situado o Parque Olhos D’Água, comprovou que após a implantação do Parque os imóveis valorizaram em média 20%. Além das empresas que decidiram investir no comércio local.

O Parque Urbano e Vivencial do Gama tem potencial turístico e irá privilegiar, inclusive, os moradores do entorno, e movimentar a cidade, defende Alex Ribeiro, 40, presidente interino do Conselho Comunitário do Setor Norte do Gama. “É um parque que oferece condições para fazer lago artificial, por exemplo, para abrigar vegetações típicas do cerrado e proporcionar lazer e esporte para o Gama, Santa Maria, Recanto das Emas e para outras cidades que ficam próximas. Ao invés dos moradores irem para outros parques, ficarão aqui no Gama”, disse.

Matéria publicada na edição de Julho do jornal Folha Independente do Gama

No ritmo da educação

Projeto oferece oficinas gratuitas de percussão para crianças, adolescentes e adultos. As aulas acontecem sempre às quartas-feiras

Oficinas Tambores na Escola - Créditos Josemildo Cavalcante

 

 

A música é a matéria prima do Projeto Tambores na Escola. É por meio do ensino da percussão que os instrutores do projeto difundem a cultura afro-brasileira e levam para a comunidade uma alternativa de lazer e educação. Idealizado por João Monteiro, 58, especialista em Percussão Popular e em Cultura Afro-Brasileira, o Tambores na Escola foi criado em 2001 e chegou ao Gama em 2012. Desde então, por meio do projeto, acontecem oficinas de instrumentos percussivos na cidade, atualmente cerca de 30 pessoas são atendidas. Apesar do nome, as aulas não se limitam ao ambiente escolar, quadras de esportes também podem ser palco da batucada. Os encontros semanais acontecem na sede do Projeto, localizada na Quadra 1 do Setor Sul.

 
Oficinas Tambores na Escola - Créditos Josemildo Cavalcante (1) No ano passado, o Tambores na Escola recebeu apoio do Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do DF e realizou oficinas em três escolas: Centro de Ensino Fundamental 11 Centro de Ensino Fundamental 15 e Centro Educacional. Ao todo, 150 pessoas foram contempladas. Parte dos instrumentos utilizados nas aulas são dos integrantes do projeto e outros emprestados pelo Centro Social Cantinho do Girassol, de Ceilândia. O coordenador e idealizador, João Monteiro, conta que principal objetivo da atividade é fortalecer a cultura afro-brasileira, levar conhecimento, principalmente, para estudantes de escolas públicas e oferecer entretenimento à comunidade. “A educação afro brasileira é a nossa história, e isso ainda não foi implementado nas escolas”. Oficinas Tambores na Escola - Créditos Josemildo Cavalcante (2)

O dinheiro para execução do projeto foi direcionado apenas para o ano de 2012, mas as oficinas continuaram com o trabalho voluntário de Monteiro e de outros dois instrutores: André Luís e Ubiratan Jesus, conhecido como BiraDjham. O oficineiro, André Luís, 37, afirma que o resultado do projeto foi o que o motivou a continuar. “A gente se sentiu com certa obrigação de não deixar o trabalho parar. A gente vê muitas crianças que não tinham contato nenhum com o instrumento e que agora tocam.” Além disso, o retorno das famílias também é positivo. “Temos contatos com os pais, conversamos com eles para dar incentivo. Os pais contam que os filhos têm melhorado tanto na escola quanto em casa. A gente não só dá aula de percussão, a gente também conversa, explica e fala que tem que estar bem na escola”, reforça a produtora do projeto Geny Marques, 47.

A estudante Rosa Maria Mel, 11, está no projeto desde o início e demonstra satisfação com a atividade. “É melhor do que ficar na rua, fazendo coisas erradas. E na escola é muito bom. Se um dia tiver uma apresentação eu posso tocar”. Vinícius Gomes, 15, aprendeu a tocar percussão durante as aulas. “Estou há cinco meses no projeto e estou gostando muito”. A mãe de Vinícius, a professora Leonisia Gomes, 40, aprova o Tambores na Escola. “Hoje em dia nossas crianças precisam disso. Elas precisam conhecer outras culturas e conhecer todos instrumentos. “

 

Oficinas Tambores na Escola - Créditos Josemildo CavalcanteHistórico

Foi uma experiência nos Estados Unidos que motivou João Monteiro a construir o projeto Tambores na Escola. Em 1998, ele começou a dar aulas de para estudantes e decidiu se aprofundar no assunto e trazer para o Brasil a atividade. A iniciativa deu certo e aos poucos conquistou espaço nas escolas do Distrito Federal. A Escola Classe 7 de Ceilândia foi a primeira contemplada.

Serviço:  Os interessados em participar das oficinas podem entrar em contato com o coordenador João Monteiro pelos telefones: (61) 3385.7476 / 8495.4192 / 9862.3369 / 9226.3889 / 7818.7793

As aulas acontecem às quartas-feiras às 17h. Local: Quadra 1, Conjunto H, Lote 22, Setor Sul – Gama

 

 

Castelinho às moscas

Administração prevê construção de biblioteca e reforma do local, mas sem data definida. Enquanto isso, moradores tentam conseguir autorização para administrar e preservar a área

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A Praça do Castelinho, localizada no Setor Oeste do Gama, dá sinais de abandono. Brinquedos quebrados, quadras de esportes em situação precária, pista de skate “bowl” em mau estado e o prédio, chamado de Castelinho, abandonado e depredado. Este é o cenário da Praça, que sem a manutenção devida se torna ponto de encontro de usuários de drogas. Moradores e comerciantes da área reclamam da situação e reivindicam por melhorias.

Um grupo de pessoas decidiu se organizar e fundar o Clube Unidade de Vizinhança dos Moradores do Gama – Castelinho, com o objetivo de desenvolver benfeitorias e cuidar da manutenção do local. O Clube foi instituído pela Lei 2.323/99, que prevê a instalação da organização na Praça 1, a legislação também define que o Clube Unidade tem o objetivo de “desenvolver trabalhos comunitários, realizar atividades culturais, esportivas e lúdicas, promover a união e a convivência dos moradores gamenses e implementar programas de consolidação da cidadania e de incentivo à participação comunitária”.

O problema, apontado pela diretoria do Clube, como principal obstáculo para a realização das ações previstas na Lei é a ausência de uma sede física. De acordo com o presidente, Edson Luis Matheus, conhecido como Bidon, 50, o ideal seria instalar a organização no prédio do Castelinho. “Queremos realmente ocupar o espaço e trazer a comunidade para atuar com a gente”. Bidon explica que o Clube quer fazer da Praça um local que atenda as demandas da população. Entre as propostas estão incluídas a reforma das quadras, criação de um campo de futebol society e de uma estrutura para atender as necessidades dos atletas, com água potável e banheiros.

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O Clube tenta conseguir autorização da Administração Regional do Gama para instalar a sede, mas o administrador Márcio Palhares, informou que há planos do governo para o prédio Castelinho, por isso é inviável atender ao pedido da diretoria da organização. Moradores fizeram um abaixo assinado, em abril, pedindo a construção de uma biblioteca pública na Praça, e a administração pretende dar andamento a esse projeto, apesar da demanda do Clube ser de 2011. “Entre atender o Clube Unidade de Vizinhança e atender a comunidade do Setor Oeste, a gente atendeu ao pedido da comunidade”, e complementa, “A gente já pensava em construir uma biblioteca, e agora culminou com o interesse dos moradores”. A proposta da construção da biblioteca vem de 2011, e ainda não há prazo para entrega do projeto.

O administrador também comentou que há outra proposta em tramite para a Praça do Castelinho. “Há o projeto de fazer um calçadão de caminhada em volta da área, dentro do perímetro vamos realizar a reforma dos aparelhos públicos, instalar outros, como um Ponto de Encontro Comunitário, fazer a reforma da pista de skate e das quadras”. Segundo Palhares, a ideia do governo não prejudica a atuação do Clube Unidade de Vizinhança. “Se o Clube se instalar lá e for atender a lei, que é realizar promoção social, promover o bem estar da sociedade, fomentar o lazer, cultura e esporte, isso não conflita com o que a gente quer fazer lá. Nós queremos reestruturar a Praça para realizar também esporte, lazer e cultura. Uma não inviabiliza a outra, elas se complementam”. Bidon, presidente do Clube também não vê problemas na iniciativa da Administração, só cobra agilidade para que o local seja revitalizado. “Não vejo problema em colocar uma biblioteca e realizar outras ações, só queremos gerir o espaço. O que vier de benfeitoria é melhor para todos nós”.

Enquanto nada é feito, quem sofre é a população. João Paulo Leal, 31, professor, se reúne para jogar bola com os amigos há dez anos na Praça do Castelinho e diz que apenas no início o local era bem cuidado. “A grade é furada, o piso é ruim e frequentemente a gente se machuca e ainda falta uma cerca ao redor da quadra”. Alguns até evitam frequentar a praça, como é o caso de Michelle Moraes. Mãe de duas crianças, a moradora do Setor Oeste prefere ir ao Parque do Setor Leste. “Esse parquinho está mal cuidado, brinquedos quebrados, areia suja. Ainda tem gente usando drogas e ninguém faz nada”, reclama. Os comerciantes também se sentem prejudicados com o descaso em relação à Praça. Além do uso de drogas, Ahmad Abidel, 33, reforça que a violência intimida funcionários e clientes. “As lojas são arrombadas com frequência aqui. Eu já me preveni e coloquei grades”.

Opinião dos moradores:

“Esse Castelinho nunca foi para frente. Seria bom se fosse construído alguma coisa boa nesse local, algo que movimentasse e inibisse as pessoas de usarem drogas”

Maria José, comerciante, 61

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Jenisval Oliveira Pinho

“Essa área está muito largada. Algumas pessoas colocam animais aqui, deixa o espaço todo sujo. Além disso, muitas pessoas ficam usando drogas aqui e tudo isso desestimula a gente de frequentar a Praça do Castelinho. Eu acho que é preciso uma ação excepcional do poder público, para transformar isso aqui em uma área de múltiplas funções e que atenda jovens e adultos. Não adianta só vim às vezes e roçar a área, tem que fiscalizar também, fica uma área de ninguém. “

Jenisval Oliveira Pinho, 48, motorista

“Eu acho que se a Praça estivesse sendo uma área assistida, tivesse manutenção ia ser ótimo para os moradores. Aqui é um espaço bom para trazer as crianças, para elas brincarem. É bom até para os adultos, serviria de um praça de encontro da comunidade. Mas a realidade é que o que tem aqui está destruído, sem condições. Além de que tem muitas pessoas usando drogas aqui, e isso torna a área perigosa. Então é um espaço legal, mas essas coisas afastam a gente.”

Ednalva Maria Souza, 49, administradora

“É melhor ter um Clube Unidade Vizinhança aqui do que ser ponto de droga aqui. Isso compromete toda a área. É uma boa praça, uma das melhores do DF, mas ninguém quer vir aqui. Então ter um Clube iria dar uma injeção social aqui no setor.”

Ludicéia Lemos, 40, professora aposentada e voluntária no Conselho Comunitário de Segurança do Gama

“Essa Praça está dentro de uma planta e tem como objetivo sediar múltiplas atividades para a comunidade. Porém, essa área está sendo subutilizada e ainda falta um comando. Ninguém sabe a quem se dirigir, não há agenda de atividades e também não há infraestrutura nem que ofereça água potável e nem que abrigue todas as diversas atividades.”

Antilhon Saraiva,68, integrante do Conselho Deliberativo do Clube Unidade de Vizinhança

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Janaína e o filho Eduardo

“Está tudo abandonado, sujo e brinquedos quebrados. Eu morei aqui há um ano e já observava essa situação, agora está muito pior. Acho que no mínimo é preciso fazer uma reposição dos brinquedos. Já vim aqui algumas vezes e vi que o labirinto, para as crianças brincarem, estava muito sujo. São coisas simples de serem feitas e que já ajudaria bastante.”

Janaína Vieira Pinto, 29, pedagoga

“A gente que está na escola observa que o Gama quase não tem espaço de lazer para a juventude. Essa área é muito carente de espaços para brincar, se divertir. Esses pontos são importantes até para garantir para os jovens uma vida mais saudável, isso ajuda ele a se encontrar e garante qualidade de vida para toda a comunidade. Acho que é necessário ter um Clube Unidade de Vizinhança aqui para agregar todos os moradores, é importante congregar, conhecer a população, isso até reduz a violência. Veja bem, no Plano Piloto, existem dois clubes de vizinhança e que são frequentadíssimos. Brasília é uma cidade fria, é preciso criar um caldeirão que reúna todas as culturas.”

Enóquio Sousa Rocha,58,  professor

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Henrique Mateus e Gabriel Henrique

“A quadra não é adequada para a gente jogar. Falta estrutura, tem uns buracos e a gente sempre se machuca.” 

Hendrick Mateus, 17, estudante

“É preciso reformar a Praça do Castelinho, reformar as quadras que existem aqui. Tudo isso vai dar mais alegria para os moradores do Setor Oeste e para quem frequenta o espaço.”

Gabriel Henrique, 19, estudante

Repensar a cidade – Centro Cultural Itapuã

Avança na Administração Regional do Gama o processo para revitalização do Centro Cultural Itapuã.  A previsão é que as obras comecem no início de 2014

Foto: Walter Sarça

 Há nove anos desativado e em estado de deterioração, o Centro Cultural Itapuã pode enfim reabrir as portas para o público. Tramita na Administração Regional do Gama o processo para revitalização do espaço.  Até o momento a Comissão de Estudo e Projeto para a Restauração do Cine Itapuã,criada para estudar a reforma do local, já realizou levantamento da estrutura física e uma audiência pública, no dia 23 de março,sobre o Centro Cultural. O próximo passo é a construção do projeto de arquitetura, que deve ser liberado para consulta à comunidade até junho deste ano.

O projeto será elaborado por arquitetos da Administração e da Secretaria de Cultura e levará em conta as sugestões feitas pela comunidade no dia da audiência. As propostas foram variadas, mas convergem em um ponto: todos querem vero espaço cultural ativo novamente.

As pessoas que participaram da audiência propuseram a transformação da área – que inclui a praça, o parquinho e os Correios, em um complexo cultural que abrigue várias linguagens artísticas. Os lojistas também pediram a inclusão das lojas na reforma. Apesar de a Administração ter sinalizado que há a possibilidade de ampliar os andares do edifício que abriga o Centro Cultural, e comunidade pediu a preservação da arquitetura original, também solicitou que o espaço fosse utilizado apenas para produção e atividades artísticas. Além disso, houve proposta para abertura de concurso de arquitetura para a escolha do projeto do Complexo Cultural – sugestão essa já descartada pela administração, sob a alegação de não haverrecursos financeiros. Com relação a como será gerido o espaço, uma das propostas consiste na gestão compartilhada entre compartilhada entre poder público e sociedade civil. A comunidade pediu ainda a criação de uma comissão para obtenção de recursos financeiros.

O arquiteto Ariomar da Luz Nogueira, 66, criou um projeto arquitetônico para o Centro Cultural Itapuã e levou à audiência. Ele propõe a reestruturação da parte interna e da parte externa com um teatro de arena e uma torre piramidal com homenagem a todos os artistas do Gama. “Uma cidade para existir como cidade ela tem que ter um espaço cultural e o espaço que temos é justamente o Itapuã que está naquele estado”, afirma.

De acordo com o administrador do Gama, Márcio Palhares, todas as propostas serão consideradas, mas o projeto final será feito pelo governo. “Em um segundo momento, iremos apresentar o projeto de arquitetura para a comunidade, levando em consideração outras audiências, as discussões técnicas, os recursos que estão previstos. Assim, faremos o modelo de centro cultural. A gente vai apresentar uma coisa direcionada, levando em conta o que já foi discutido até então”, explica. A forma de gestão e os critérios para utilizar o local também serão discutidos pela Comissão de Estudo e Projeto para a Restauração do Cine Itapuã. “A gente quer que a gestão fique na cidade, de preferência com a comunidade cuidando, mas isso não está claro.”

O “pacote pronto” será apresentado para a comunidade, que poderá sugerir modificações. Quando for aprovado, o próximo passo da Comissão será o orçamento. Segundo Palhares, dois deputados já sinalizaram a liberação de recursos para a obra. Após essa fase, será aberto o processo para licitação, que dura entre 2 e 3 meses. “Esse é o grande momento da cultura do Gama. Coma revitalização do Centro Cultural Itapuã será possível dar oportunidade à classe artística, atores, cantores, poetas. A comunidade terá um espaço de cultura, e não precisará se deslocar para assistir peças teatrais e shows”, acredita Palhares.

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 A expectativa agora é que o Centro Cultural Itapuã volte a ser de grande efervescência cultural, como sugere o conselheiro de cultura Flávio Pinheiro, 44. “O resgate desse espaço vai trazer em primeiro lugar um fomento à economia criativa aqui no Gama. Vai também melhorar a vida dos nossos produtores, sejam da área do teatro, do cinema, da música, das artes plásticas e do artesanato também”. A atriz e produtora Leda Carneiro, 43, gestora do Espaço Cultural Bagagem também celebra a iniciativa de revitalização do Itapuã. “É imprescindível que aconteça. A gente não pode perder umespaço daquele tamanho, que já tem uma história, então tem que ser feito mesmo, já está até atrasado, essa reforma já tinha que ter acontecido antes”.

 Ludimila Ferreira, 21, e André Lucas Veríssimo, 21, estudantes do curso de engenharia da Universidade de Brasília, moram no Gama desde 2012 e não sabiam que o espaço deteriorado na praça do setor central já foi um dos locais mais importantes do Gama. “Eu achava que aqui só tinha o comércio mesmo, nem sabia que isso era um espaço cultural”, afirma Ludimila.

Histórico

Centro Cultural Itapuã - Arquivo Administração  (2)

O Centro Cultural Itapuã é o antigo Cine Itapuã, inaugurado em 28 de março de 1961. O espaço, gerenciado pela Empresa Cinematográfica Paulo Sá Pinto, foi o primeiro prédio construído na cidade e o segundo cinema do Distrito Federal. O local já recebeu lançamentos de filmes, festivais internacionais e apresentação de artistas como Oswaldo Montenegro, Emílio Santiago e Beto Guedes.

Em 1986, o espaço do cinema foi vendido para os lojistas da região, eles compraram e doaram a área para a Administração do Gama. Porém, o processo de transferência legal não estava completo e só foi regularizado em 2012. Dois anos após a venda, o espaço foi reformado e passou a ser administrado pelo Cine Clube Porta Aberta.

Ato Itapuã pela Arte                        

A comunidade pretende dar desdobramento à audiência pública e organiza um ato em prol do espaço. O Ato Itapuã pela Arte será realizado no dia 5 de maio na praça do Centro Cultural Itapuã.Durante todo o dia, acontecerão diversas apresentações de música, teatro e poesia. No local também estarão expostos trabalhos desenvolvidos por artistas da cidade. Mais informações pelo e-mail atoitapuapelaarte@gmail.com

*Matéria publicada inicialmente na edição nº37 do jornal Folha Independente do Gama

Saudades do cancioneiro

 Vítima de câncer nos rins, Carlinhos Piauí morreu no dia 4 de março aos 49 anos. O artista está imortalizado nas canções e nas atividades culturais que desenvolveu

Carlinhos Piauí - arquivo pessoal

A voz, o carisma e a sensibilidade poética tornaram Carlos Augusto da Silva mais do que um artista completo, fizeram dele alguém respeitado e admirado.  Carlinhos Piauí era nordestino, nasceu em Teresina, no estado do Piauí, em 1963, mas escolheu o Gama para fincar as raízes. Ele chegou à cidade aos 11 anos e aqui conquistou fãs, fez amigos, constituiu família e trilhou a trajetória. Até mesmo o nome artístico adotado por Carlinhos é resultado da infância vivida na cidade: as crianças o apelidaram de Carlinhos Piauí e esse nome ele carregou durante toda a vida.

Além de ser cantor e compositor, Carlinhos Piauí também se destacou como ativista cultural na cidade. Desenvolveu algum tempo a função de produtor cultural na Associação de Assistência aos Trabalhadores em Educação do Distrito federal (ASEF) e por dois anos esteve à frente da Diretoria Social da Administração Regional do Gama. Cargo que ocupava quando descobriu o câncer nos rins, em dezembro de 2012. Dois meses depois, em fevereiro, Carlinhos foi hospitalizado e morreu no dia 4 de março, a doença havia se espalhado por todo o corpo, em uma fase chamada metástase.

A música encontrou Carlinhos em 1976, quando ele estava com 13 anos.  No início, os encontros com o violão aconteciam às escondidas. Isso por que o instrumento pertencia ao irmão. Por ser canhoto, precisava tocar ao contrário, o que não foi nenhum empecilho, logo ele adquiriu domínio sob as cordas.

FMPG

Foi no final dos anos 70, que Piauí participou do primeiro festival o 1º Festival de Música Popular do Gama, realizado em 1979. Na edição seguinte do FMPG, ganhou o prêmio junto ao grupo Sertão. A participação em festivais continuou e o nome do músico e compositor se solidificou no cenário cultural do Distrito Federal e de estados da região Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste. Para o poeta e compositor Paulo Avelino, 50, amigo de Piauí desde 1995, o sucesso se deve ao trabalho original desenvolvido pelo artista. Carlinhos Piauí carregava na essência a cultura popular e nordestina. “Quando eu conheci o Carlinhos, já era um nome forte na música de Brasília. Ele representava o nordeste muito bem”.
Carlinhos Piauí com 28 anos no Chá de Berço do filho Mateus Braga - arquivo pessoal

Avelino, chamado simplesmente de Poeta por Piauí, conta que o cantor levava para os palcos artistas como Luiz Gonzaga, Alceu Valença e Ivanildo Vila Nova e também incluía no repertório compositores da região desconhecidos. “Imagina, ele tocava Jackson do Pandeiro, e tocava Paulo Avelino, Luthemberg Peixoto. Então é interessante isso, você pega um cara que vai lá nas raízes e que também tocava música nossa”. A música “Baião Sonhado”, que está no primeiro CD intitulado “Conterrâneos” (1999), é uma parceria entre Piauí, Avelino, Zé Miguel e o poeta Pezão. “A música que Carlinhos gravou abriu muitas portas para mim. Eu era conhecido mais como poeta. Já como compositor, me tornei conhecido depois que ele gravou essa canção”.

Difundir e valorizar o trabalho dos artistas populares se tornou uma marca registrada de Piauí. “Ele sempre foi muito fiel ao estilo, às raízes. É nordestino, desenvolvia um trabalho alternativo e não flexionava esse gênero de forma alguma. Era aquilo ali e era aquilo mesmo”, observa o cantor e compositor Jairo Mendonça, 42. Mendonça chegou ao Gama na década de 90 e conheceu Piauí no movimento cultural da cidade. “Ele foi um artista extremamente original. Era um bom compositor e um excelente interprete. Tinha uma voz forte e muito marcante”, ele acrescenta que Carlinhos Piauí é uma das referências musicais que tem. “Ele é referência não só para mim, mas para muitos outros músicos mais jovens, que seguiram nessa trilha”.

FAMÍLIA

Se nas ruas Carlinhos Piauí inspirava e motivava os amigos e o público, no ambiente Única menina dos quatro filhos Rebeca Braga - arquivo pessoalfamiliar não era diferente. Por influência do pai, a filha mais nova Rebeca Braga, 19, aprendeu a tocar violão. A “Passarinha”, apelido pelo qual Piauí carinhosamente chamava a filha, conta que ela e os irmãos sempre acompanharam a vida artística do pai. “Ele é meu ídolo! Ele sempre levava a gente nos shows que fazia, cresci o ouvindo cantar”. Mateus Braga, 21, lembra que o pai sempre costumava tocar e cantar em casa. “Quase todos os dias, a gente chegava em casa e ele ficava cantando para a gente”. Assim como Rebeca, Mateus e Tiago Ramos,30, também carregam nas veias o dom artístico. Mateus é dançarino de break e toca bateria na igreja em algumas ocasiões, já Tiago toca cavaquinho, ocasionalmente.

DISCOGRAFIA

 Carlinhos Piauí gravou 5 cds: Conterrâneos (199), Estradas e Terreiros (2002), Correndo (2005), Sertão de Cabo a Rabo (2009) e Sertão de Cabo a Rabo 2º ato (2011), que teve participação da filha Rebeca Braga, na música “ Menino e o mar”. Os dois últimos foram gravados com um grupo de forró e com o poeta Ruiter Lima, 65. Lima conta os álbuns surgiram de forma espontânea. Em 2003, se encontraram por acaso e fizeram uma apresentação de poesia e música de forma improvisada, mas que agradou ao público. Após esse show, foram convidados para tocar em outros locais. “Eu falei, Piauí é o seguinte a gente está naturalmente com uma apresentação pronta de poesia matuta e música de raiz. Começamos então a trabalhar”. O espetáculo passou por 63 escolas e por algumas cidades como Palmas-TO e Formoso – MG. Com o projeto pronto, decidiram fazer a gravação dos álbuns.

A parceria entre Ruiter Lima e Carlinhos Piauí deu certo. Os dois planejavam realizar um novo trabalho juntos, dessa vez seria a montagem teatral do espetáculo Sertão de Cabo a Rabo, que contaria com a participação de dois atores. Eles participaram do edital de seleção do Fundo de Apoio à Cultura e foram selecionados. “Eu não pude dar essa notícia para o Piauí, quando o resultado saiu ele já tinha falecido. Agora eu vou ter que realizar o espetáculo e eu estou pensando como vou fazer, porque substituir o Piauí não vai ser mole”, revelou Lima. Piauí trabalhava também na produção de um CD, ele chegou a gravar todas as faixas, mas sem a parte instrumental. O álbum é composto por canções de forró de outros artistas.

Amigos de Piauí colhem assinaturas para dar o nome de Piauí a uma área da Feira Permanente frequentada por artistas da cidade. A intenção é criar o “Espaço Cultural Carlinhos Piauí”.

POR TRÁS DOS PALCOS….

Piauí encantava o público enquanto interpretava e cativava as pessoas com o bom humor e simpatia. “Ele era muito amigo de todo mundo. Carlinhos tratava todo mundo muito bem”, relata Paulo Avelino e, conta entre risos, que guarda muitas recordações e histórias de Piauí, e ressalta que algumas podem ser reveladas outras não.

Para o gerente de cultura da Administração Regional do Gama Manoel Messias, amigo e colega de trabalho de Piauí, a principal característica do diretor Social no trabalho e no dia a dia era a calma e a capacidade de diálogo, além de ser alguém muito engraçado ressalta. “Ele era o elo apaziguador entre Manoel e os artistas. Manoel estourado e ele fazia a mediação. Ele fazia isso muito bem, pois era mais calmo que eu e com uma sensibilidade cultural muito maior também”.

Jairo Mendonça além de ter tido Piauí como referência também se tornou amigo do cantor e guarda de Carlinhos Piauí a alegria. “De tudo ele fazia uma piada. Às vezes ele era engraçado até quando não queria ser. Era uma figura muito leve, muito amigo, muito tranquilo e muito na dele”.

Mesmo enquanto esteve doente Piauí manteve o bom humor e o pensamento positivo. O filho Mateus Braga revela que o pai estava internado e sempre fazia uma piada para as visitas. “Esse é uma das características dele que eu me espelho. Apesar de tanta coisa, ele estava sempre animado, aonde chegava fazia o povo rir, até mesmo no hospital ele fazia gracinha”.

Mais do que um pai, Carlinhos Piauí foi um companheiro. É o que diz o filho mais velho Tiago Ramos. “Ele sempre foi o meu amigo, o meu confidente. A gente conversava muito e sobre tudo!”.