Castelinho às moscas

Administração prevê construção de biblioteca e reforma do local, mas sem data definida. Enquanto isso, moradores tentam conseguir autorização para administrar e preservar a área

Imagem

A Praça do Castelinho, localizada no Setor Oeste do Gama, dá sinais de abandono. Brinquedos quebrados, quadras de esportes em situação precária, pista de skate “bowl” em mau estado e o prédio, chamado de Castelinho, abandonado e depredado. Este é o cenário da Praça, que sem a manutenção devida se torna ponto de encontro de usuários de drogas. Moradores e comerciantes da área reclamam da situação e reivindicam por melhorias.

Um grupo de pessoas decidiu se organizar e fundar o Clube Unidade de Vizinhança dos Moradores do Gama – Castelinho, com o objetivo de desenvolver benfeitorias e cuidar da manutenção do local. O Clube foi instituído pela Lei 2.323/99, que prevê a instalação da organização na Praça 1, a legislação também define que o Clube Unidade tem o objetivo de “desenvolver trabalhos comunitários, realizar atividades culturais, esportivas e lúdicas, promover a união e a convivência dos moradores gamenses e implementar programas de consolidação da cidadania e de incentivo à participação comunitária”.

O problema, apontado pela diretoria do Clube, como principal obstáculo para a realização das ações previstas na Lei é a ausência de uma sede física. De acordo com o presidente, Edson Luis Matheus, conhecido como Bidon, 50, o ideal seria instalar a organização no prédio do Castelinho. “Queremos realmente ocupar o espaço e trazer a comunidade para atuar com a gente”. Bidon explica que o Clube quer fazer da Praça um local que atenda as demandas da população. Entre as propostas estão incluídas a reforma das quadras, criação de um campo de futebol society e de uma estrutura para atender as necessidades dos atletas, com água potável e banheiros.

Imagem

O Clube tenta conseguir autorização da Administração Regional do Gama para instalar a sede, mas o administrador Márcio Palhares, informou que há planos do governo para o prédio Castelinho, por isso é inviável atender ao pedido da diretoria da organização. Moradores fizeram um abaixo assinado, em abril, pedindo a construção de uma biblioteca pública na Praça, e a administração pretende dar andamento a esse projeto, apesar da demanda do Clube ser de 2011. “Entre atender o Clube Unidade de Vizinhança e atender a comunidade do Setor Oeste, a gente atendeu ao pedido da comunidade”, e complementa, “A gente já pensava em construir uma biblioteca, e agora culminou com o interesse dos moradores”. A proposta da construção da biblioteca vem de 2011, e ainda não há prazo para entrega do projeto.

O administrador também comentou que há outra proposta em tramite para a Praça do Castelinho. “Há o projeto de fazer um calçadão de caminhada em volta da área, dentro do perímetro vamos realizar a reforma dos aparelhos públicos, instalar outros, como um Ponto de Encontro Comunitário, fazer a reforma da pista de skate e das quadras”. Segundo Palhares, a ideia do governo não prejudica a atuação do Clube Unidade de Vizinhança. “Se o Clube se instalar lá e for atender a lei, que é realizar promoção social, promover o bem estar da sociedade, fomentar o lazer, cultura e esporte, isso não conflita com o que a gente quer fazer lá. Nós queremos reestruturar a Praça para realizar também esporte, lazer e cultura. Uma não inviabiliza a outra, elas se complementam”. Bidon, presidente do Clube também não vê problemas na iniciativa da Administração, só cobra agilidade para que o local seja revitalizado. “Não vejo problema em colocar uma biblioteca e realizar outras ações, só queremos gerir o espaço. O que vier de benfeitoria é melhor para todos nós”.

Enquanto nada é feito, quem sofre é a população. João Paulo Leal, 31, professor, se reúne para jogar bola com os amigos há dez anos na Praça do Castelinho e diz que apenas no início o local era bem cuidado. “A grade é furada, o piso é ruim e frequentemente a gente se machuca e ainda falta uma cerca ao redor da quadra”. Alguns até evitam frequentar a praça, como é o caso de Michelle Moraes. Mãe de duas crianças, a moradora do Setor Oeste prefere ir ao Parque do Setor Leste. “Esse parquinho está mal cuidado, brinquedos quebrados, areia suja. Ainda tem gente usando drogas e ninguém faz nada”, reclama. Os comerciantes também se sentem prejudicados com o descaso em relação à Praça. Além do uso de drogas, Ahmad Abidel, 33, reforça que a violência intimida funcionários e clientes. “As lojas são arrombadas com frequência aqui. Eu já me preveni e coloquei grades”.

Opinião dos moradores:

“Esse Castelinho nunca foi para frente. Seria bom se fosse construído alguma coisa boa nesse local, algo que movimentasse e inibisse as pessoas de usarem drogas”

Maria José, comerciante, 61

Imagem

Jenisval Oliveira Pinho

“Essa área está muito largada. Algumas pessoas colocam animais aqui, deixa o espaço todo sujo. Além disso, muitas pessoas ficam usando drogas aqui e tudo isso desestimula a gente de frequentar a Praça do Castelinho. Eu acho que é preciso uma ação excepcional do poder público, para transformar isso aqui em uma área de múltiplas funções e que atenda jovens e adultos. Não adianta só vim às vezes e roçar a área, tem que fiscalizar também, fica uma área de ninguém. “

Jenisval Oliveira Pinho, 48, motorista

“Eu acho que se a Praça estivesse sendo uma área assistida, tivesse manutenção ia ser ótimo para os moradores. Aqui é um espaço bom para trazer as crianças, para elas brincarem. É bom até para os adultos, serviria de um praça de encontro da comunidade. Mas a realidade é que o que tem aqui está destruído, sem condições. Além de que tem muitas pessoas usando drogas aqui, e isso torna a área perigosa. Então é um espaço legal, mas essas coisas afastam a gente.”

Ednalva Maria Souza, 49, administradora

“É melhor ter um Clube Unidade Vizinhança aqui do que ser ponto de droga aqui. Isso compromete toda a área. É uma boa praça, uma das melhores do DF, mas ninguém quer vir aqui. Então ter um Clube iria dar uma injeção social aqui no setor.”

Ludicéia Lemos, 40, professora aposentada e voluntária no Conselho Comunitário de Segurança do Gama

“Essa Praça está dentro de uma planta e tem como objetivo sediar múltiplas atividades para a comunidade. Porém, essa área está sendo subutilizada e ainda falta um comando. Ninguém sabe a quem se dirigir, não há agenda de atividades e também não há infraestrutura nem que ofereça água potável e nem que abrigue todas as diversas atividades.”

Antilhon Saraiva,68, integrante do Conselho Deliberativo do Clube Unidade de Vizinhança

Imagem

Janaína e o filho Eduardo

“Está tudo abandonado, sujo e brinquedos quebrados. Eu morei aqui há um ano e já observava essa situação, agora está muito pior. Acho que no mínimo é preciso fazer uma reposição dos brinquedos. Já vim aqui algumas vezes e vi que o labirinto, para as crianças brincarem, estava muito sujo. São coisas simples de serem feitas e que já ajudaria bastante.”

Janaína Vieira Pinto, 29, pedagoga

“A gente que está na escola observa que o Gama quase não tem espaço de lazer para a juventude. Essa área é muito carente de espaços para brincar, se divertir. Esses pontos são importantes até para garantir para os jovens uma vida mais saudável, isso ajuda ele a se encontrar e garante qualidade de vida para toda a comunidade. Acho que é necessário ter um Clube Unidade de Vizinhança aqui para agregar todos os moradores, é importante congregar, conhecer a população, isso até reduz a violência. Veja bem, no Plano Piloto, existem dois clubes de vizinhança e que são frequentadíssimos. Brasília é uma cidade fria, é preciso criar um caldeirão que reúna todas as culturas.”

Enóquio Sousa Rocha,58,  professor

Imagem

Henrique Mateus e Gabriel Henrique

“A quadra não é adequada para a gente jogar. Falta estrutura, tem uns buracos e a gente sempre se machuca.” 

Hendrick Mateus, 17, estudante

“É preciso reformar a Praça do Castelinho, reformar as quadras que existem aqui. Tudo isso vai dar mais alegria para os moradores do Setor Oeste e para quem frequenta o espaço.”

Gabriel Henrique, 19, estudante